quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os reformados devem resistir e lutar bravamente:
1. Contra o pragmatismo
2. Contra o anticonfessionalismo;
3. Contra a sedução do crescimento a qualquer custo;
4. Contra a heresia e o espírito da época;
5. Contra o abandono da pregação cristocêntrica;
6. Contra o "evangelismo" por meio de outro evangelho;
7. Contra o culto de entrenimento antropocentrista;
8. Contra o a pseudo-reforma que deforma e deturpa a verdade;
9. Contra a ortodoxia fria e divorciada da vida;
A fé reformada exige homens e mulheres comprometidos com Cristo, firmes e seguros de suas crenças e convicções. Dispostos a sofrer por Cristo, pelo evangelho e pela Igreja. Se alguém se diz reformado e não está num campo de batalha, não sabe ainda o que é a fé reformada.

sábado, 15 de outubro de 2016

MARCAS DISTINTIVAS DA PREGAÇÃO DE JOÃO CALVINO

Silas Roberto Nogueira

"A majestade das Escrituras merece que seus expositores façam-na evidente, que tratem-na com modéstia e reverência".
Calvino

Diante de Calvino só há duas atitudes, rejeição ou aceitação – ficar indiferente não é uma opção. Dizer que ele foi um grande teólogo é um eufemismo. Como Kant divide a história da filosofia, Calvino divide a história da teologia. É impossível fazer teologia hoje sem interagir com o legado de Calvino, que é perene, vasto e cujas implicações vão muito além do âmbito da teologia. Calvino foi um exegeta notável e um expositor singular. Poucos pregadores, em qualquer época, conseguem competir com a produção de Calvino como um pregador. Durante a maior parte de seus anos em Genebra, ele pregava duas vezes a cada Dia do Senhor e, em semanas alternadas, todos os dias da semana também. Isto soma a algo perto de 300 sermões ao ano! Ele pregou por todo o livro de Gênesis, Deuteronômio (200 sermões), Jó (159 sermões), Juízes, 1 e 2 Samuel (194 sermões), 1 e 2 Reis, todos os Profetas Maiores e Menores (324 sermões sobre Isaías e 174 sobre Ezequiel), todos os quatro Evangelho (65 sermões) , Atos (189 sermões), 1 e 2 Coríntios (176 sermões) , Gálatas (43 sermões), Efésios (48 sermões), 1 e 2 Tessalonicenses (46 sermões), 1 e 2 Timóteo (86 sermões), Tito (17 sermões) e Hebreus! O que tornava a sua pregação singular era a visão elevada da pregação, que era obviamente resultado de sua elevada visão de Deus e das Escrituras. Para Calvino a pregação era a viva voz de Deus em sua Igreja. A autoridade de Calvino não fluía de sua posição política ou posição social, sua influência procedia de sua “considerável autoridade pessoal como pregador”. Podemos destacar as seguintes marcas distintivas da pregação singular de Calvino:

 1. Calvino era um pregador bíblico. A pregação de Calvino era bíblica em seu conteúdo. Ele se opunha vigorosamente a quem pregasse suas ideias no púlpito: "Quando adentramos o púlpito, não podemos levar conosco nossos próprios sonhos e fantasias". Calvino se manteve firme no principal fundamento da Reforma — sola Scriptura (somente a Escritura). Ele acreditava que o pregador não tinha nada a dizer além das Escrituras.

2. Calvino era um pregador sequencial. Durante quase 25 anos de ministério seu modelo de pregação foi o mesmo, do começo ao fim, pregando através da Escritura, livro após livro. Na manhã dos domingos, ele pregava o Novo Testamento e à tarde, o Novo Testamento e os Salmos; e, em semanas alternadas, pregava o Antigo Testamento todas as manhãs da semana. Servindo-se desse método consecutivo, Calvino pregou quase todos os livros da Bíblia, exceto o Apocalipse.

3. Calvino era um pregador expositivo. Era direto em sua introdução. Calvino introduzia de imediato os seus ouvintes no texto bíblico. O foco da mensagem era sempre as Escrituras, e Calvino falava o que precisava ser dito com economia de palavras. É difícil encontrar nos seus sermões uma estrutura homilética como hoje a temos. Muitas vezes ele tomava o texto, analisava-o e aplicava-o sucessivamente durante cerca de uma hora. Nisso consiste um sermão expositivo. Seus sermões não são um exemplo de beleza e estilo por algumas razões, uma era o fato de pregar quase todos os dias e outra era que ele entendia que um estilo excessivamente elaborado poderia prejudicar a clareza da mensagem, mas também...

4. Calvino era um pregador extemporâneo. Quando subia ao púlpito, ele não levava consigo um rascunho escrito ou esboço do sermão. O reformador fez uma escolha consciente de pregar extempore, ou seja, espontaneamente. Ele queria que seus sermões tivessem uma desenvoltura natural e cheia de paixão, enérgica e envolvente; acreditava que a pregação espontânea era mais conveniente para cumprir esses objetivos. Não fossem as notas taquigráficas nada teríamos dos seus sermões!

5. Calvino era um pregador exegético. Ele insistia que as palavras das Escrituras têm de ser interpretadas conforme o ambiente histórico específico, as línguas originais, as estruturas gramaticais e o contexto bíblico. Calvino insistiu no sensus literalis, isto é, o sentido literal do texto bíblico.

6. Calvino era um pregador simples. A pregação de Calvino era acessível em sua simplicidade. Ele tinha por objetivo falar ao homem comum e fazê-lo entender o que a Bíblia diz. Ocasionalmente, Calvino explicaria mais cuidadosamente o significado de uma palavra, sem citar o grego ou o hebraico. Todavia, Calvino não hesitava em usar a linguagem da Bíblia.

7. Calvino era pregador com tom pastoral. Ele nunca perdia de vista o fato de que era um pastor. Assim, ele aplicava calorosamente as Escrituras, com exortação amável a fim de pastorear o seu rebanho. Ele pregava com a intenção de estimular e encorajar suas ovelhas a seguirem a Palavra. Com frequência, ele utilizava pronomes na primeira pessoa do plural – “nos” e “nós” – ao exortar a congregação. Ao fazer isso incluía a si próprio na necessidade de agir segundo a verdade bíblica. Contudo, não hesitava em chamar os ouvintes ao autoexame à medida que aplicava a verdade bíblica. 

8. Calvino era um pregador polêmico. Para Calvino, a pregação necessitava de uma defesa apologética da verdade. Ele acreditava que os pregadores tinham de resguardar a verdade; por isso, a exposição sistemática exigia a confrontação das mentiras do Diabo em todas as suas formas enganosas. Diz ele “asseverar a verdade é apenas uma parte do trabalho de ensinar...todas as falácias do diabo precisam ser dissipadas”. Se conflito mais frequente era com o catolicismo, mas refutava a todos os que contradiziam a Palavra.

9. Calvino era um pregador evangelístico. Em nossos dias, há uma noção errônea de que, por acreditar na predestinação, Calvino não era evangelístico. O mito persistente é que ele não tinha paixão por alcançar almas perdidas para trazê-las a Cristo. Nada pode estar mais distante da verdade. Calvino possuía uma grande paixão por alcançar as almas perdidas. Por essa razão, ele pregava o evangelho com uma persuasão que afetava o coração e com amor, apelava aos pecadores desgarrados a se renderem à misericórdia de Deus.

10. Calvino era um pregador doxológico. Todos os sermões de Calvino eram completamente teocêntricos, mas seus apelos conclusivos eram sinceros e amorosos. Ele não podia descer do púlpito sem exaltar o Senhor e instar seus ouvintes a se rederem à absolutamente supremacia dEle. Os ouvintes tinham de se humilhar sob a poderosa mão de Deus. Quando concluía, Calvino exortava regularmente sua congregação: ‘Prostremo-nos todos ante a majestade do nosso grande Deus’. Não importando o texto bíblico sobre o qual ele pregava, essas palavras demandavam uma submissão incondicional de seus ouvintes.

_______________
Fontes: 
João Calvino, amor, devoção, doutrina e glória de Deus, Ed. Burk Parsons, Fiel. 
A arte expositiva de Calvinos, Steven Lawson, Fiel. 
Pensamento cristão, Vol II, Tony Lane, ABBA
Servos de Deus, Franklin ferreira, Fiel. 
Teologia dos Reformadores, Timothy George, Vida Nova. 
O legado da alegria soberana, John Piper, Shedd. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

7 MANEIRAS DE CUIDAR DO SEU PASTOR


por Shawn Wilhite

Como você cuida do seu pastor?

Eu comecei a entender isso quando eu li um artigo que, mais tarde, tornou-se um pequeno panfleto intitulado Orando pelo Domingo: você, seu pastor e o seu próximo sermão. É um recurso prático que provê tremendo insight.

Depois de servir ao ministério pastoral por seis anos, sei que falar de cuidar do seu pastor pode parecer estranho. Mas não precisa sempre ser assim. Aqui estão sete simples maneiras de como os membros da igreja podem cuidar de seus pastores.

1. Ore por e com ele

Este é provavelmente o mais óbvio. Durante meu primeiro ano de pastorado, as qualificações me atingiram em cheio (1 Timóteo 3.1-6; Tito 1.7-9). Há uma vasta diferença entre estudá-las e perceber que sua posição depende delas.

Pastores precisam de orações todos os dias. Eles não são bombardeados apenas com questões administrativas, as quais roubam seu tempo, mas também são tentados pelo orgulho, preguiça, luxúria, entre outras coisas. Devemos orar pela perseverança deles em se manterem qualificados – o que inclui serem irrepreensíveis.

Além disso, ore com seus pastores. Procure-os. O coração deles é tão pesado quanto o seu. E não há alegria maior em saber que o povo de Deus tem orado por você.

2. Fale com ele sobre o sermão

Em média, um pastor gasta cerca de 10 a 20 horas no preparo do sermão. Se ele prega duas ou três mensagens por semana, isso significa que ele gastará por volta de 20 a 45 horas preparando sermões.

Se o seu pastor é um pregador expositivo, venha preparado para ouvir a Palavra de Deus. Se ele prega em séries temáticas, entre em contato com o escritório da igreja para adquirir os próximos tópicos e passagens. Estude o texto antes de ir à igreja e reflita em questões para perguntar.

Uma ovelha fiel tem grande prazer em explicar a Palavra de Deus. Pergunte o que ele aprendeu em seus estudos. Tire uma dúvida que você teve. Pergunte como a passagem se relaciona com questões teológicas e como isso ocorre. Comece uma conversa sobre o sermão. Depois de mais de 20 horas de preparação, você tem uma fonte de sabedoria na sua frente.

3. Diga a ele como Deus está fazendo você crescer

Quando eu era pastor, uma das minhas grandes alegrias era ouvir das ovelhas como elas estavam sendo aperfeiçoadas. Era encorajador ouvir o que elas estavam aprendendo e como Deus estava fazendo-as crescer.

Veja a resposta de Paulo ao ouvir sobre uma congregação anterior:

Agora, porém, com o regresso de Timóteo, vindo do vosso meio, trazendo-nos boas notícias da vossa fé e do vosso amor, e, ainda, de que sempre guardais grata lembrança de nós, desejando muito ver-nos, como, aliás, também nós a vós outros, sim, irmãos, por isso, fomos consolados acerca de vós, pela vossa fé, apesar de todas as nossas privações e tribulações. – 1 Tessalonicenses 3.6-7

Esse relato trouxe grande conforto e força para Paulo. Colocou vento em suas velas. E ouvir sobre seu crescimento no Senhor irá rejuvenescer seus pastores.

4. Cuide dele financeiramente

Pastores normalmente ganham pouco. Talvez seu pastor precise participar de programas de auxílio-alimentação. Porém, ele nunca diria isso a você. Na verdade, ele não deve pastorear o rebanho de Deus por torpe ganância (1 Pedro 5.14). Mas se seu pastor não é pago generosamente, sua mente e coração ficam propensos a ficarem divididos:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. – 1 Timóteo 5.17-18

Precisamos nos certificar que os nossos pastores estão financeiramente estáveis. O corpo local combina seus recursos financeiros e dão ao pastor para liberá-lo para pastorear sem se preocupar com a pobreza.

Cuide de suas crianças para que ele possa sair com a sua esposa. Pague um passeio em família para ele – talvez anonimamente. Seja criativo e generoso com seu cuidado financeiro.

5. Cuide da esposa dele

Esposa de pastor tem um papel difícil. Como pastor, era sempre desencorajador quando minha esposa falava para mim sobre algum problema da igreja. “Como você ouviu isso”, eu perguntava. Alguém da igreja havia falado.

Cuidar do seu pastor significa ajudá-lo a proteger sua esposa das coisas secretas e sujas de sua igreja. Eu garanto, ela não precisa saber de tudo.

Além disso, tenha uma expectativa realista do papel dela. Ela é exatamente como você, uma serva de Cristo. Ela exatamente como você, uma esposa tentando honrar seu marido. Ela é exatamente como você, uma mãe desencorajada que está lutando. Ela é exatamente como você, uma mulher tentando honrar o Senhor com sua vida. Ela é exatamente como você, um membro comum da igreja. Ame-a e a sirva, assim como você faria com outros do corpo.

6. Edifique biblioteca dele

A biblioteca do seu pastor é uma de seus bens mais valiosos. Ele ama e precisa dos livros. E ele precisa adquirir mais. Eles irão ajudá-lo a se tornar um pastor, teólogo, intérprete da Bíblia, conselheiro, marido e pai melhor.

Note a curta lista de itens desejada por Paulo, perto do fim de sua vida: “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Caropo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos.” (2 Timóteo 4.13)

No fim de sua vida, o encarcerado apóstolo queria a companhia dos amigos de ministério mais próximos e seu material de leitura.

Não necessariamente compre livros que você esteja lendo ou que você acha que irão ajudá-lo. Faça uma pesquisa: sobre o que ele está pregando? O que ele está estudando? Ele ama as línguas bíblicas? Pergunte a um de seus amigos próximos. Ele tem uma lista de desejos na Amazon? Se não, peça para que ele crie uma.

7. Submeta-se à liderança dele

Propositalmente, deixei este ponto por último. Submeter-se ao seu pastor pode ser difícil. Mas você trará alegria ao coração dele – e ao seu – se você se colocar debaixo da liderança piedosa:

Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros – Hebreus 13.17

Existe uma correlação direta entre obediência e alegria de seus presbíteros. Trabalhe duro para se submeter – com gozo, e não de má vontade – à liderança deles. Esse é o meio de supervisão espiritual que o nosso Salvador estabeleceu para sua alma.

Pode ser útil começar uma conversa com seu pastor, seus presbíteros ou outros crentes mais maduros para determinar como é que isso tem funcionado para você. Se você luta para ser submisso, seja honesto sobre isso com outras pessoas em sua vida. Às vezes é sábio sair de uma igreja, assim como também o é começar uma conversa.

Como você tem cuidado do seu pastor? De quais outras maneiras você poderia cuidar dele? Oro para que você seja encorajado a isso e comece a implementar algumas dessas ideias.


Fonte: http://reforma21.org/artigos/7-maneiras-de-cuidar-do-seu-pastor.html

terça-feira, 19 de abril de 2016

A PRÁTICA PURITANA DE MEDITAÇÃO

“Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.” Josué 1:8

Joel Beeke


O que a palavra meditação nos lembra? Talvez a primeira coisa que venha a nossa cabeça seja a imagem de alguém praticando yoga, sentado de pernas cruzadas, mãos nos joelhos e olhos fechados. Hoje essa é a meditação que rodeia nossas vidas. Às vezes fica até estranho falar em meditar no meio cristão. Esse termo infelizmente é associado com práticas pagãs de religiões orientais como o budismo e hinduísmo. Nós, inclusive, criticamos com razão essa meditação transcendental que tem como objetivo nos conectar com algo desconhecido ou simplesmente nos levar ao nada, como uma fuga dos estresses da vida. Ao mesmo tempo somos também merecedores de críticas quando nos esquecemos da meditação bíblica, tão importante para o crescimento espiritual da Igreja de Jesus. Mas o tempo agora não é de críticas e sim de lembrarmo-nos dessa prática, aprendermos e nos encorajarmos a praticá-la. E para isso, juntamente com as Escrituras, vamos recorrer aos grandes mestres da meditação, os puritanos. Com os puritanos como mentores, talvez possamos descobrir a prática bíblica da meditação para nossa época. Vamos começar!

O que é meditação e sua necessidade

Meditar significa pensar sobre, refletir ou pensar profundamente. O dicionário também fala de contemplação, oração mental e até mesmo falar consigo mesmo. O sentido bíblico usado é o mesmo. Deus está convocando Josué não só a ler o livro da lei, mas para pensar profundamente nele, refletir e contemplá-lo. O puritano Thomas Watson definiu a meditação como: Um santo exercício da mente por meio do qual trazemos a memória as verdades de Deus, ponderamos seriamente sobre elas e as aplicamos a nós mesmos

O livro de Salmos fala mais de meditação do que todo o resto da Bíblia junto. E no seu primeiro capítulo o salmista diz que bem aventurado é o homem que: “tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.” Por que a meditação é tão importante como vemos com Josué e agora em Salmos? Qual a sua necessidade? Em primeiro lugar é uma ordenança Bíblica como já vimos. Só esse motivo já seria suficiente, mas os puritanos nos ensinam outros. Para eles a meditação alimenta a fé. A meditação é a digestão daquilo que foi engolido. É o que Davi diz no salmo 119:92-92:

“Se a tua lei não fosse o meu prazer, o sofrimento já me teria destruído. Jamais me esquecerei dos teus preceitos, pois é por meio deles que preservas a minha vida” 

Para os puritanos sem a meditação a Palavra pregada não será de toda proveitosa. Para eles apenas engolir conhecimento não é suficiente, é necessário digeri-lo bem para que tenha benefícios para alma, mente e ações. Sem meditação as orações se tornam menos efetivas. Para os puritanos ela é o dever central entre a palavra e a oração. Thomas Manton dizia que: A palavra alimenta a meditação e a meditação alimenta a oração. Devemos ouvir para que não erremos e meditar para que não sejamos estéreis (sem frutos). A meditação deve seguir a audição e preceder a oração.

E por último os puritanos diziam que sem meditação o cristão se torna incapaz de defender a verdade do evangelho. A falta de meditação causa ignorância e nos tira o fundamento sólido ou nossa espinha dorsal. Os puritanos entendiam a real necessidade da meditação, escreveram muito sobre isso e deixaram um eco na história dizendo: Meditem, meditem, meditem… Davi disse: “Fico acordado nas vigílias da noite, para meditar nas tuas promessas” Salmos 119:148

Os tipos de meditação

Existem dois tipos de meditação e nós encontramos as duas nos escritos e exemplos puritanos. A primeira eles chamam de meditação ocasional, aquela que acontece sem hora marcada, de repente, quando vemos, ouvimos ou percebemos algo. É exatamente o que Davi fez ao olhar a lua e as estrelas no Salmo 8, Salomão com as formigas em Provérbios 6 e o próprio Jesus com o poço de água em João 4 (refletindo sobre a água do poço e comparando com a salvação de Deus). Eles usaram elementos da natureza para refletir sobre verdades eternas de Deus. Thomas Manton dizia que: Cada atividade terrena esteja envolvida com uma mente celestial. Assim, seja na loja, seja na fábrica, seja no campo, ainda pensemos em Cristo e no céu

O segundo tipo de meditação, considerado por eles mais importante, é a meditação solene, aquele com hora marcado para acontecer, com tempo e assuntos definidos. Ocorre quando alguém separa um tempo e entra em sua sala privada ou caminhada solitária, e então medita solene e deliberadamente sobre as coisas celestiais. É um compromisso marcado com a meditação. 

Outro puritano, chamado Thomas Gouge escreveu: Uma Meditação estabelecida é uma séria aplicação da mente a algum tema espiritual ou celestial, discursando daí contigo mesmo, a fim de que teu coração se aqueça, teus afetos se vivifiquem e tuas resoluções se intensifiquem a um maior amor por Deus e ódio ao pecado. Esses dois tipos de meditação são importantes, mas nós precisamos buscar mais a meditação solene. Precisamos sistematicamente e diariamente buscá-la. Os puritanos nos ajudam e muito na prática de como fazer isso!

Como os puritanos meditavam?

Frequência e tempo: Eles tinham o ideal de meditar duas vezes ao dia caso fosse possível e aconselhavam que fosse feito pelo menos uma vez, todos os dias. Sua prática era definirem um tempo, que mesmo que não fosse muito deveria ser respeitado todas as vezes. Falavam em meia hora por dia para os iniciantes e que esse tempo fosse aumentando com o passar do tempo. 1 hora de meditação era um bom tempo para eles. Muitos nem aconselhavam que a meditação demorasse muito. 

É importante lembrar-se de dois dias especiais de meditação para os puritanos. No dia do Senhor, o domingo, quando após o culto pela manhã meditavam sobre o sermão para que ele fosse proveitoso para a alma. E também antes e durante a ceia como preparação e reflexão profunda sobre a obra de Cristo. Que tal imitarmos essas práticas? 

Preparação: Eles se preparavam para a meditação se desligando das coisas mundanas e purificando o coração da culpa através de orações. Encaravam o momento com seriedade e sem pressa. Prezavam por encontrar um lugar tranquilo, agradável e livre de interrupções. E por fim, mantinham uma postura física reverente, sendo sentados, em pé, de joelhos ou até andando. O importante era manter o corpo também em reverência, sem desleixo. 

Maneira: Os puritanos oravam pela iluminação do Espírito e depois partiam para a Escritura, selecionando uma passagem ou doutrina bíblica para a meditação. Aconselhavam temas mais fáceis para os iniciantes e temas que se aplicassem melhor a suas circunstâncias atuais. Refletiam sobre essas verdades falando consigo mesmo e aplicando a suas vidas. Por fim memorizavam algum versículo chave e terminavam em orações e cantando salmos. Joel Beeke fez uma lista dos temas mais recomendados pelos puritanos para meditação. O maior deles foi o céu, a realidade da eternidade. Outros são a doutrina do pecado, a morte, a natureza a atributos de Deus, a obra de Cristo e as promessas de Deus.

Para encerrar essa parte mais prática precisamos fazer uma diferenciação muito importante para os puritanos: Estudar e meditar. Nas palavras de Thomas Watson: Há tanta diferença entre o conhecimento de uma verdade, e a meditação sobre uma verdade, como há entre a luz de uma tocha e a luz do sol. O conhecimento é apenas uma tocha acesa no entendimento, a qual exerce pouca ou nenhuma influência, ela não torna uma pessoa melhor, mas a meditação é como os raios do sol: operam nos afetos aquecem o coração e o fazem mais santo. A meditação extrai vida de uma verdade.

Conhecimento – Meditação = Fé morta (problema mais recorrente entre os reformados e tradicionais)

Meditação – Conhecimento = Fé errada (problema mais recorrente entre os carismáticos e pentecostais)

Conhecimento + Meditação = Fé piedosa (solução para todos)

Watson continua dizendo que: Estudo é a descoberta de uma verdade, meditação é a benfeitoria espiritual de uma verdade, uma busca a mina de ouro, a outra cava até o ouro. Estudo é como um sol de inverno que tem pouco calor e influência, meditação derrete o coração quando este está congelado e o faz gotejar lágrimas de amor.

Conclusão

Richard Baxter escreveu que: Muitos se deixam atribular se não ouvem um sermão, não praticam jejum, não fazem uma oração em público ou particular, contudo, nunca se sentem atribulados se omitem a meditação, quem sabe durante todos os dias de suas vidas.” Precisamos de uma resolução: meditação. A meditação na verdade produz piedade e uma igreja piedosa vive de forma especial para a glória de Deus. Segundo os puritanos “a meditação faz um cristão”.